Porque é que devemos nacionalizar a Shell – Jan-Willem Anker

Há dez anos atrás, Fatih Birol, atual diretor da Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, EIA) em Paris, previu que o fim da Shell estava à vista. Infelizmente, a sua visão encantadora na altura falhou em materializar-se. Infelizmente? Sim, porque a Shell é a incorporação Holandesa da crise climática.

A Shell pode estar com um discurso mais verde, mas as suas tretas são as mesmas de sempre. Há que refrescar a memória: há oito empresas no mundo inteiro a emitir mais CO2 do que a Shell. Estão preocupados com a vossa própria pegada ecológica? Todos os anos a Shell liberta tanto CO2 para a atmosfera como todos os Países Baixos em conjunto. Para lamber a sua ferida, a Shell escolhe investir uns meros 5 porcento do seu orçamento de investigação e desenvolvimento em energia renovável. Cinco porcento. A Shell é uma piromaníaca que incendeia a nossa casa global e que depois nos oferece um balde de água. A empresa está ciente dos riscos catastróficos associados ao aquecimento global desde 1980, e não só nada fez para os evitar, como de tudo fez para nos distrair do problema. A sua máquina de propaganda bem financiada continua a gerar conteúdo enganador intencionalmente, como o mais recente “travel hack” (programa que oferece formas mais “limpas” de viajar), desmascarado como “greenwashing” pelo comediante Arjen Lubach. A Shell está presente em cursos de formação, escolas e universidades com o objetivo de doutrinar as pessoas desde muito novas, continuando a fazer de tudo para manter a ilusão de que a empresa trata como importantes a transição energética e climática.

A Shell é má: o tipo de maldade que nos faz abanar a cabeça e sentir um nó no estômago. Perguntam-se como é que se sentem os trabalhadores da Shell com isto tudo, se lhes começa a pesar na consciência antes de se irem deitar. Talvez eles sejam da opinião, razoável, de que não conseguem mudar uma organização tão grande e administrativamente pesada por si próprios. Ou que, ao tomarem medidas que afetam as margens de lucro da empresa, os acionistas virem costas. Então, o que acontece entretanto? Não assim há tanto tempo, o CEO da Shell, Ben van Beurden, cuja conta bancária aumentou cerca de 20 milhões em 2018, disse: “vou injetar tudo o que conseguir injetar”. O “injecionista” Van Beurden designa o problema energético como “complexo”. Ele gosta de desviar o ónus da ação para a política, afirmando que cabe aos governos tomar decisões. Ao ilibar a responsabilidade da Shell desta forma dissimulada – e sejamos honestos – desprezível, sem saber, ele está a levar-nos para a solução de quebrarmos o jugo da Shell.

É possível escolher desmantelar a Shell em conjunto. Se houver vontade política, podemos dissecar as partes sustentáveis da empresa, nacionalizar as partes insustentáveis e encerrá-las. A coisa mais dolorosa desta solução é que possivelmente teremos de abandonar os interesses dos acionistas, mas desde que não sejam acionistas (!) não têm de se preocupar com isto. Para prevenir instabilidade social, podemos reforçar os fundos de pensões e outras organizações que sirvam o interesse social. Isso também é justiça climática.

Mas isto não vai custar muito dinheiro? Sim, vai. Mas se a transição energética, que está a ser impedida pela Shell todos os dias, não for rápida o suficiente, o custo será muitas vezes maior. A adaptação climática é tudo menos de graça. Um país que tem de lidar com o aumento do nível médio das águas do mar e o desabamento da massa territorial, deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para proteger a sua população. O que não deve ser esquecido são os benefícios diretos de desmantelar a Shell. Todo o conhecimento e talento que está agora escondido na empresa pode ser libertado. Com alguma formação, os trabalhadores da Shell podem aplicar o seu conhecimento e experiência para acelerar a transição energética. Quem é que não haveria de querer tal coisa?

Talvez ainda não vos tenha convencido. Podem argumentar que com o desmantelamento do número nove na lista dos maiores poluidores, oito poluidores ainda maiores continuarão ativos. A isso eu digo: mesmo num mundo globalizado, todos os começos são locais. Deixar as coisas seguirem o seu rumo também não é uma opção. A desativação iria oferecer uma maior garantia de que as infraestruturas da Shell seriam desmanteladas e disponibilizadas de forma responsável. Para além disso, imaginem a onda de choque poderosa que tal decisão terá no mundo. Se é possível nos Países Baixos, também é possível em qualquer lado.

Se ainda pensam que isto roça o delírio, quero relembrar-vos dos eventos de 2008. Nada menos do que três dos chamados “bancos sistémicos” foram nacionalizados: Fortis Nederland, ABN-AMRO e SNS REAAL. Isto custou milhares de milhões. E esses milhares de milhões foram disponibilizados sem qualquer consulta pública, porque o governo considerou isto necessário. Foi difícil de engolir para o ministro das finanças da altura e ex-trabalhador da Shell, Wouter Bos, mas assim o fez.

Por faltar a coragem aos nossos políticos a nível nacional para atacar as multinacionais, as campanhas continuam a ser uma ferramenta indispensável. Não apenas para pressionar a Shell e os nossos líderes governamentais cobardes, os nossos parlamentares cínicos e indiferentes e os nossos acionistas insensíveis e presidentes tagarelas, mas também para expressar apoio a todas as pessoas que sabem que as coisas podem ser feitas de forma diferente. É por isso que eu concordo: A Shell deve cair (Shell must fall)! E perto da próxima assembleia de acionistas no dia 19 de Maio, vamos começar a trabalhar para isso.


Artigo originalmente publicado em holandês em Joop.nl a dia 21 de Dezembro de 2019, traduzido da versão em inglês do Code Rood, em solidariedade com a acção Shell Must Fall.

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