Extractivismo é a razão de ser da Galp

A Galp só vê recursos para extrair e explorar. Se isto é válido com os ecossistemas, é também válido em relação às pessoas. Não se trata de um mero modelo de negócio, mas de uma visão do mundo, de lentes que filtram, distorcem e focam a realidade.

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O presidente executivo da Galp, Carlos Gomes da Silva, auferiu em 2018 uma remuneração total bruta de 1,76 milhões de euros, 35 vezes o salário médio dos trabalhadores da empresa e 197 vezes o salário mínimo nacional.

Vamos pôr isto em perspectiva. O recorde mundial masculino de maratona é do Dennis Kimetto do Quénia na maratona de Berlim em 2014, com 2 horas, 2 minutos e 57 segundos. As estimativas dizem que uma pessoa média demoraria 8 horas e 27 minutos para acabar a maratona. Qual é a diferença então entre o vizinho João e o Dennis Kimetto? A proporção é:

1 : 4.35

Podemos seguramente dizer que Kimetto tem mérito, que vem das suas competências, dedicação e treino regular. Podemos seguramente dizer que Kimetto merece o recorde mundial e ver o seu nome mencionado por todo o lado.

Que mérito tem o Carlos Gomes da Silva, para justificar uma proporção de

1 : 197

em comparação com um trabalhador com salário mínimo?

A recente queda do preço do petróleo, provocada pela crise do Coronavírus e pela disputa entre a Rússia e a Arábia Saudita, levou a uma descida de 30% no valor das acções da GALP. Prontos a lucrar com a catástrofe, Carlos Gomes da Silva, e o seu administrador financeiro, Filipe Silva, aproveitaram para comprar acções da petrolífera. O seu mérito é o seu oportunismo?

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Na sua Assembleia Geral Anual no dia 24 de Abril, em plena crise, a Galp quer distribuir dividendos no valor de 315 milhões aos seus accionistas. Ao mesmo tempo, na refinaria de Sines despede dezenas de trabalhadores precários e unilateralmente aumenta a jornada de trabalho de 8 para 12 horas sem qualquer pagamento de trabalho suplementar, enquanto suspende a actividade da fábrica de combustíveis no complexo industrial de Matosinhos.

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Para a Galp, o lucro vem primeiro, o lucro vem segundo, e o lucro vem terceiro. (Mais nada ganha medalha nenhuma.)

A Galp é um símbolo de extractivismo em Portugal, não só em termos ambientais mas também em termos sociais.

É preciso assegurar uma transição justa para os trabalhadores da indústria fóssil e construir uma democracia energética pública e 100% renovável para todas as pessoas. Para isso, a Galp tem de cair.

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